Entrevista com
EMMA RESTALL ORR
Druidesa e Líder da Druid Network (GB)
| Claudio Quintino (Crow), Emma "Bobcat"
e Patricia Fox na Hera Mágica Empório, durante sua
visita ao Brasil Agosto/2002 |
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HERA MÁGICA: Esta foi sua primeira visita ao Brasil.
Em termos de druidismo e paganismo, o que você esperava encontrar aqui
antes de chegar?
EMMA: Sem dúvida, foi minha primeira visita ao Brasil, e agora
eu gostaria de ter vindo antes! Foi simplesmente uma experiência maravilhosa,
e não existe meio honroso de começar uma entrevista para um público
brasileiro sem expressar minha gratidão e minha admiração!
Mas passemos às respostas: o grau de interesse no druidismo no Brasil
me surpreendeu. Em todo o mundo, sempre que viajo eu sinto a profunda necessidade
que as pessoas têm de se reconectar com as forças e os ciclos da
Natureza, e vejo que um grande número tenta atingir esse objetivo através
da maravilhosa diversidade de paganismos globais. Isto é ainda mais tocante
no mundo ocidental, onde o consumismo e a urbanização nos afastaram
do mundo natural. Como conseqüência, o pagansimo é hoje um
dos movimentos religiosos que mais cresce. Eu esperava ver no Brasil a mesma
sensação de urgência que encontro em outros lugares, com
pessoas ansiosas por encontrar um modo de vida que seja ambientalmente sustentável,
honroso e responsável, mas não imaginava que no Brasil esse interesse
se manifestasse com tanta força através do Druidismo.
HERA MÁGICA: Então, o que você encontrou no Brasil
superou suas expectativas?
EMMA: Sem dúvida. Eu sentia a energia do Brasil à distância,
e já havia lido bastante sobre o país, sua história e seu
povo. Contudo, mergulhar nesse país, em meio a seu povo é algo
bem diferente. Senti uma energia espiritual que jamais eu sentira em outros
lugares. É talvez uma energia única. Levei algum tempo até
realmente compreender essa energia, e quando me dei conta ela já estava
dentro de mim: existe um quê de otimismo, um sentimento de que tudo é
possível, um desejo de transformar, mesclar e fundir que parece emergir
da fabulosa mistura de raças e histórias que muitos brasileiros
compartilham. Essas forças dançam no ar e é algo
muito belo.
Contudo, entrelaçada a essa doce e determinada energia, existe também
uma tristeza, uma certa confusão, quase uma descrença. Eu senti
como se as pessoas aquelas que estão despertas e em busca de algo
e também as que se mantêm à distância das questões
parecem assistir impassíveis enquanto sua linda terra desaparece
sob seus pés. A energia intensa que origina a dança está
sendo destruída pela poluição e pelo desmatamento. Parece
que as pessoas ficam incrédulas: como pode algo tão belo e vivo
ser tomado da gente? Como é que alguém pode desejar destruir nossa
terra de forma tão brutal?
Assim, senti a dança espiritual do Brasil, mas senti também sua
dor. Não admira que tantos brasileiros procurem no paganismo um modo
de vida sustentável e sagrado.
HERA MÁGICA: Você vê o druidismo como uma espiritualidade
global?
EMMA: Potencialmente, sim.
HERA MÁGICA: Como assim, potencialmente?
EMMA: O druidismo, até onde se sabe, originou-se na Grã-Bretanha.
Contudo, é uma tradição cujas raízes recuam através
dos milênios, mesclando-se às origens da terra e da ancestralidade.
Evoluindo nas paisagens temperadas da Grã-Bretanha, o druidismo possui
em sua essência uma profunda compreensão da natureza da transformação.
Contudo, o druidismo não é uma espiritualidade evangélica,
que deva ser preservada e transmitida palavra por palavra. Eu luto muito para
livrar o druidismo de quaisquer informações erradas e preconceitos,
mas não prego o druidismo para que existam mais e mais adeptos
no mundo. Não existe esse componente fanático, proselitista. No
entanto, sou proselitista quando o assunto é o ambientalismo, levar uma
vida honrada, reduzindo o consumismo e os conflitos. Quando em meus cursos,
livros e palestras falo em se levar uma vida sagrada, espero que minhas palavras
sejam suficientemente acessíveis para que sejam captadas pelos que me
escutam ou lêem e que sejam traduzidas, integradas, enraizadas em suas
próprias vidas, suas realidades individuais.
Quando as pessoas conseguem encontrar inspiração nas lendas do
druidismo, sejam quais forem as raízes que sigam hereditárias,
sangüíneas ou espirituais pouco importa em que parte do mundo
elas moram. O druidismo é hoje praticado em todas as partes do mundo,
onde os descendentes de europeus resgatam a sabedoria de seus ancestrais pagãos
e mesmo as pessoas sem descendência européia buscam por ensinamentos
que lhes permitam uma reconexão verdadeira com os ciclos da Natureza.
HERA MÁGICA: Num contexto global, como você vê o futuro
do druidismo, e de que forma os brasileiros podem se beneficiar?
EMMA: O Druidismo é uma espiritualidade da natureza, uma forma
de xamanismo, de origem européia. É triste verificar que as regiões
do mundo que mais sofrem com o peso do consumismo foram povoadas ou exploradas
por europeus. O druidismo não só nos mostra a importância
de se livrar do consumismo excessivo para que se possa levar uma vida honrada
e sustentável, como também surge justamente do coração
dos povos que causam mais danos. Somos NÓS que temos de mudar, e o druidismo
é nossa linha-guia.
HERA MÁGICA: Isso nos remete ao comentário de um importante
divulgador da cultura tupi-guarani, que disse que os povos indígenas
brasileiros não foram perseguidos pelos europeus, mas sim por uma cultura
espiritual (o cristianismo) que se instalou entre esses europeus. Tanto os druidas
celtas quanto os índios brasileiros sofreram a mesma perseguição
por parte do cristianismo.
EMMA: Exatamente. Mas voltemos ao modo como o druidismo pode ajudar os
brasileiros. Sem ser o país mais consumista do mundo, o Brasil é
uma nação poderosa, possuidora de recursos extraordinários
como sua vasta floresta tropical. O sistema político do Brasil pode ser
tão perverso quanto em outros países, mas nós temos outros
meios de fazer a diferença. Cada centavo que gastamos, cada produto que
compramos, reflete nosso modo de vida. Quando optamos por produtos orgânicos,
reciclados e ambientalmente corretos, estamos elegendo um modo de vida mais
sustentável, menos agressivo. Ao compreender e adotar os ideais do druidismo,
nós despertamos daquele estado de torpor que nos faz crer que tudo está
OK, que não precisamos fazer nada, ou que não há nada que
possamos fazer, ainda que desejássemos. Errado. Nós todos podemos
fazer a diferença nós PRECISAMOS fazer a diferença.
Contudo, não se trata apenas de assumir a responsabilidade por nossas
atitudes. O druidismo nos ensina a natureza extática da relação
sagrada, de se viver com beleza, inspirados e satisfeitos. O Druidismo nos ensina
a preencher nossas vidas com a doçura da criatividade consciente. Ensina-nos
o sentido da vida, seus valores e sua proposta, de modo que aprendemos a amar
de forma inspirada, maravilhados e em meio a um profundo e sincero respeito.
HERA MÁGICA: Qual foi sua impressão geral
sobre o workshop que você conduziu no Brasil?
EMMA: Para mim, aquele workshop foi muito forte, e muitas lembranças
dele ainda me emocionam. Era um grupo grande, incluindo os que lá foram
por curiosidade e não por interesse verdadeiro (em especial alguns jornalistas),
mas logo formou-se um senso de comunidade que era belo de se ver. E para mim,
ainda que só uma pessoa dissesse que o evento mudou sua vida, então
eu estaria satisfeita. E foi maravilhoso ouvir essas palavras de diversas pessoas.
Senti-me e ainda me sinto honrada por compartilhar esses ensinamentos e inspirações.
HERA MÁGICA: Os seus artigos estão entre os textos mais
visitados do website da Hera Mágica, e seus dois livros em português
(Princípios do Druidismo e Ritual: um guia para a vida,
o amor e a inspiração, ambos à venda na Hera Mágica
Empório) estão vendendo bem. Isso indica que os brasileiros possuem
uma identificação natural com o druidismo?
EMMA: Eu diria que todos os seres humanos possuem essa identificação
com o druidismo, bata apenas que abram suas mentes e seus corações,
permitindo-se viver, ouvir, ver, saborear, sentir... Talvez a deliciosa sensualidade
natural dos brasileiros lhes dê alguma vantagem!
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Emma e Crow com seus livros: "Ritual" e "O Livro da Mitologia Celta" |
HERA MÁGICA: Muitas pessoas interessadas no druidismo
também possuem ligações com a wicca. Existe alguma ligação
entre essas duas tradições? O que as une? O que as diferencia?
EMMA: Este é um tema, um debate, que aponta para várias respostas,
mas que deve começar por algumas definições muito claras
e de certa forma, essas próprias definições já
são um debate! Para mim, são dois os pontos principais que diferenciam
o druidismo da wicca:
Em primeiro lugar, o druidismo é totalmente voltado para a herança,
a ancestralidade, a terra e o maravilhoso mistério do fluxo da natureza
por todos esses rios que banham nossas vidas. A wicca, por sua vez, trata do
mistério do poder, e não dos mistérios da natureza.
Em segundo lugar, a ênfase da wicca está na magia, na capacidade
de promover mudanças de acordo com nossa própria vontade; as práticas
druídicas, por outro lado, são como uma busca pela inspiração.
Um druida busca a inspiração para solucionar questões e
problemas, ao invés de somente operar com as forças que lhe permitam
alterar sua vida de acordo com seus desejos pessoais.
Sou uma druidesa, portanto sou meio tendenciosa... contudo, fui iniciada como
bruxa numa tradição hereditária, e também estudei
a wicca da Inglaterra, optando por não me iniciar. Portanto, não
estou falando de algo que eu desconheça, pois tenho contato direto com
esses caminhos todos.
HERA MÁGICA: Muitas pessoas ainda vêem o druidismo como
uma tradição pagã excessivamente teórica. Para essas
pessoas, o druidismo não tem um lado prático. O que você
pode dizer sobre isso?
EMMA: Que isso está COMPLETAMENTE ERRADO! De que vale uma tradição
somente teórica? O druidismo é uma tradição com
ênfase na experiência pessoal, no êxtase e na criatividade.
Isto posto, lamento dizer que conheço muitas pessoas que se intitulam
druidas mas que raramente se afastam de seus computadores, onde engalfinham-se
em disputas sobre autenticidade e questões históricas, demonstrando
dessa forma um nível assustador de pedantismo e dogmatismo os
quais, a meu ver, são totalmente antagônicos ao druidismo, ao paganismo
ou a qualquer espiritualidade verdadeira.
HERA MÁGICA: Na sua opinião, qual o maior benefício
que o druidismo oferece a alguém?
EMMA: O indescritível prazer que surge da liberdade da alma em
perfeita harmonia com a Natureza. Êxtase. Alegria. Liberdade.
HERA MÁGICA: Para concluir, gostaríamos que enviasse uma
mensagem aos seus leitores brasileiros e os amigos da Hera Mágica...
EMMA: Estou ansiosa por voltar ao Brasil, e espero que isto ocorra nos
próximos anos. Quando eu estiver entre vocês novamente, vamos celebrar
com uma linda festa, dançando a noite toda ao vento e sob a luz do luar...
Até lá, minha mensagem é: coragem. Descubram a coragem
para se levantar a fazer aquilo que tem de ser feito; encontrem a coragem de
livrar-se das amarras das expectativas e das convenções. Encontrem
a coragem para mudar e para, no processo, promover mudanças. Deste lado
das águas sagradas do oceano, eu busco contato com vocês: vamos
encontrar e compartilhar uma energia dinâmica de transformações
que vibre por todo o mundo humano.
Vamos viver um pouco mais, livres, selvagens e fortes e em perfeita honra.
Que assim seja!
A Hera Mágica agradece à Emma Restal Orr pela
entrevista.
A entrevista foi concedida à Claudio Crow Quintino, representante da
Druid Network e B.D.O.no Brasil e coordenador dos workshops e grupos de estudos
da Hera Mágica
Lançamento do Livro Ritual
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