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Zoe de Camaris

O SALTO DO SAPO
"O príncipe desce do seu cavalo pronto para enfrentar a feiticeira que, sem fazer movimento, o mira com seus olhos incandescentes. Ele avança na sua direção decidido, a espada em punho, o cenho franzido. Em um segundo, cristaliza-se o tempo. A feiticeira observa, com a pupila de um gato sob o efeito do sol, a pequena figura de um sapo em seu primeiro salto".
Evoé, Bruxas !
O
sapo e a bruxa, a rã e a princesa. O príncipe e a feiúra,
a metamorfose, a beleza. O sapo e a magia. As emoções aquáticas,
o sexo. A sorte. Talismã, símbolo de fertilidade, a Mãe
da Chuva. Resina erótica. Veneno mortal.
Afinal, qual é a do sapo? Qual é o seu salto no imaginário
simbólico? Que relação guarda com o feminino, com a fertilidade?
Figurinha tarimbada nos contos de fada, símbolo ancestral da magia
ora sinônimo de nojo e abjeção, esse pequeno animal é,
no mínimo, surpreendente.
Na magia, a rã é relacionada à Lua e o sapo ao severo
Saturno, assim como a abelha seria uma espécie de antítese da
vespa. Não há grimório que em algum momento não
inclua o sapo ou a rã em suas receitas mágicas.
Quem não se lembra do terrível feitiço que consiste em
colocar o nome de uma pessoa 'desagradável' dentro da boca de um sapo
e alinhavar sua boca com um fio negro? O veneno é destilado como a
secreção irritante que sai da sua pele....dizem que um dos efeitos
dessa magia é causar excesso de sudorese na vítima, provavelmente
por causa da exudação do sapo.
O famoso magista Papus, cita um feitiço do não menos conhecido
mago Cornélio Agrippa em que uma língua de rã d'água
posta sobre a cabeça de uma pessoa, a faz falar enquanto está
dormindo. O coração da rã, colocado sobre o seio de uma
mulher adormecida, faz com que ela revele todos os seus segredos - a rã
desata a língua e o coração. Bem ... seria melhor não
ter revelado esse feitiço, nunca se sabe !! Já desatou a minha
língua ...
Bruxas e ciganas, não raro, os têm como seus animais domésticos.
Dizem até que o sapo PEDE para ser domesticado, impondo a sua presença,
dia após dia, na soleira das portas. E um sapo doméstico é
uma parafenália de sortilégios para caldeirão nenhum
botar defeito: auxiliar na leitura dos destinos, na meteorologia, nas magias
de fertilidade.
Em sagas populares o sapo personifica os espíritos maternos protetores
da casa. Curioso, não?
Um relato inquisitorial declara que crianças ciganas brincavam de pastoras
... e que seus rebanhos eram formados por sapos. Isso pode ser verdade, afinal
nada impede que crianças brinquem com o animal que estiver ao seu alcance,
mas não podemos esquecer também o quanto o tribunal do Santo
Ofício adulterava as declarações dos perseguidos para
que estas correspondessem o mais possível ao que era visto, pelo cristianismo
medieval, como a imagem de um sabá diabólico. Ainda mais se
tratando de ciganas, sempre estigmatizadas.
Pessoalmente, acho o bichinho simpático, gosto da sua aparência
fria e úmida, sua maneira de ficar imóvel e me deixar surpreender
com seus movimentos repentinos. Mas parece que essa não é a
opinião vigente.
Para os algonquianos, esquimós e lapões, o sapo indicava a fusão
de todos os vícios. Os tiroleses têm a máxima: "invejoso
como um sapo". Ainda no Tirol, sapos são encarnações
de pecadores, aqueles que fizeram um voto de peregrinação e
não cumpriram. E por esse motivo, despertam a piedade dos cristãos.
Mulheres que desejam ser mães no mundo árabe, usam colares de
sapos feitos em prata. Charles Leland, o grande estudioso de magia da magia
mediterrânea e do povo cigano, dizia possuir um destes; além
de um anel também em prata no qual estava gravado um sapo em hematita
- a hematita, apesar da sua cor cinza chumbo, é chamada de pedra-do-sangue,
devido ao seu alto teor de ferro. Esse anel, que reunia os pendores lunares
e sangüíneos foi considerado um poderoso amuleto e se ainda existe,
ainda o é - palavra de bruxa !
Na Baviera, onde o sapo representa o útero, existe até uma Virgem
Maria-sapo. Como é costume agradecer pedidos atendidos por meio de
ex-votos, que são réplicas das partes do corpo que apresentaram
problemas e, como seria de "mau gosto" pendurar nas igrejas úteros
feitos de cera, as mulheres depositavam pequenos sapos do mesmo material ao
redor da estátua da Virgem Maria, em agradecimento.
Ou seja, em países rurais o sapo e a Virgem ainda guardam muito dos
seus aspectos ctônicos, da sua ligação com a terra.
Soube, através de uma amiga, que mulheres costumavam recolher seu sangue
menstrual em jarros com forma de sapos, mas não ela se não lembrava
a procedência deste costume.
No cinema, quem não se lembra da chuva de sapos nas cenas finais de
Magnólia, unindo o destino dos vários protagonistas do filme?
Eles explodem no pára-brisa, lotam as ruas - uma invasão de
rãs é prevista no Apocalipse de São João (16,
13). Uma chuva de grandes sapos. O sapo e água, símbolo das
emoções. Uma chuva simbólica? Devastando as emoções
contidas?
O que é a frase "engolir sapo" senão, trancar uma
emoção dentro do peito? E que emoção, trazida
por um beijo ou outra demonstração de amor e paixão é
capaz de transformar sapos em príncipes?
Ouvi falar, certa vez, de uma espécie de sapo com manchas amarelas
nas costas. Vários adolescentes foram presos porque foram pegos lambendo
estes sapos. Com a boca na perereca. Sim, é isso mesmo, lambiam sapos.
As leis foram severas para os infratores, multa alta ou prisão. Explico:
Os sapos tinham propriedades alucinógenas. Suas secreções
venenosas foram usadas para provocar alterações psíquicas.
Será que não está aí a explicação
para que sapos virem príncipes? Sim, porque sob o efeito de determinadas
drogas, até sapo vira príncipe ... ou a princesa a se transforma
em rã e se esconde em uma bromélia.
Os que gostam de estudar contos de fada sabem que Bruno Bettelheim caracteriza
as histórias nas quais um animal é intermediário entre
homem e a mulher, como o ciclo de contos do noivo-animal. A Fera ainda irá
seduzir a Bela. Que a jovem precisa superar a imagem do pai, ao qual devotaria
um amor sublimado, e aceitar o sexo com um homem, seu noivo, ultrapassando
a interdição, a ligação "elétrica",
parodiando Electra, e aceitando o teor animalesco, leia-se sexual, desse nova
forma de amar. Ei, quem diz isso é Bruno, não sou não,
hein? Só usei as minhas palavras.
Para Jung, a rã representaria, entre os animais de sangue frio, uma
antecipação do ser humano. Possivelmente a semelhança
anatômica entre homens e mulheres, sapos, rãs ou pererecas, saltou
ao olhos do psicólogo suíço. E talvez aí se encontre
uma pista bastante acertada sobre a mítica transformação
do sapo em ser humano, a similaridade formal, a Teoria das Assinaturas.
Bem, os saltos do sapo são ganchos que ativam a curiosidade e imaginação.
Eu passaria ainda mais tempo falando deles, mas fica para a próxima
coluna; o a magia do sapo no Brasil vai coaxar o ar sua graça, do fundo
da Floresta Amazônica, em meio a fumaça de breu !
Eia, Cy e Mãe do Muirakitã!
"A princesa olha, enfim, aquele bicho nojento, úmido, que aprendeu
a amar. Sua pupila gelada e pequena cresce, dilata-se, esquenta. E derrete
o cristal do tempo. O animal se torna uma pasta amorfa, mistura-se com a terra.
E dessa mistura emerge o homem e a surpresa".
Zoe
de Camaris
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